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DIFAMAÇÃO PELA INTERNET
 

 


Revista Nova, maio de 2003
Karina Fusco

Por vingança ou pura diversão, ex-namorados insatisfeitos ou invejosos , usam o computador para denegrir a reputação alheia. São quase sempre homens e qualquer uma de nos corre o risco de cair na rede. 

Alguns casais que foram à festa XV GIOVANNA, promovida pelos alunos da Fundação Getúlio Vargas em setembro de 2002 em São Paulo, sofreram muitos dias de ressaca. O motivo não foi cerveja, nem uísque, nem nenhuma outra bebida alcoólica, mas sim, um e-mail com fotos flagrantes dos momentos que passaram dentro da cabine-cafofo instalada no local. As cenas comprometedoras (de amassos, sexo oral, masturbação...), registradas por uma câmera fotográfica escondida, chegaram numa velocidade assustadora às caixas de mensagem de internautas em geral e ficaram expostas num site, que logo foi retirado do ar. Até agora não foi possível localizar o responsável.

A estudante M.J. de 19 anos, passou por uma situação parecida, mas ao menos conseguiu identificar o agressor. Na época em que namorava R., deixou-se fotografar por ele em poses eróticas, só de calcinha e sutiã. Era somente uma brincadeira de amor, mas acabou se transformando em um pesadelo. Depois que o romance terminou, o ex-namorado, como vingança por ter sido abandonado, pegou as fotos e colocou-as em um site de prostitutas com dizeres que, entre outras coisas, a rotulavam de vagabunda. M.J. procurou o ex, que assumiu a autoria da ofensa, e o caso acabou na polícia.

A página foi retirada da rede, mas o culpado não recebeu punição. Esses são apenas dois entre as centenas de casos de “maldades virtuais”, difamações que têm circulado pela internet com uma enorme freqüência nos últimos anos. Os ataques vão desde boatos envolvendo grandes empresas, fuxicos sobre a vida alheia e ameaças pessoais até fotomontagens escabrosas ou fotografias comprometedores tiradas para uso privado.

Sejam de que tipo for, aparecem repentina e misteriosamente em vários e-mails ou são veiculados em sites, abalando reputações. Talvez muita gente não saiba, mas usar a rede de computadores para tal fim é crime e pode dar cadeia. Há quatro anos, esse delito praticamente não existia no país, até porque a internet ainda não tinha uma presença tão contundente na vida brasileira. Hoje, pode-se dizer que virou moda.

A PIRANHA DO RIO: Embora o Brasil tenha ingressado tarde na era da informática, entrou de sola – já somos mais de 6 milhões de internautas. E, no meio de tantos, os engraçadinhos (ou criminosos virtuais, como prefere a polícia) se proliferam. São quase sempre homens: segundo a Polícia Civil de São Paulo, 90% dos crimes desse tipo são cometidos por representantes do sexo masculino, precisamente rapazes de classe média alta, inteligentes e bem-educados, com idade entre 16 e 32 anos.

Para a psicóloga Ivelisa Fortim de Campos, do núcleo de pesquisas em informática da Pontifica Universidade Católica de São Paulo, a PUC/SP, o motivo que os leva a agir é simples. “Há pessoas que sentem prazer em expor outras ao ridículo. Se perguntarmos a uma delas por que divulgou fotomontagens pela rede, com certeza a resposta será que foi por diversão”, analisa.

O psicólogo Ruy Barbosa, supervisor do Programa de doenças Afetivas da Universidade Federal de São Paulo, concorda. E acrescenta: “Existe também um componente de perversão, já que o autor da brincadeira sabe que poderá prejudicar moralmente o atingindo e tem consciência de que é errado o que está fazendo. O mais importante para ele, porém, é se sentir poderoso em relação ao outro”.

Simplificando, o difamador virtual pode ser um ex-empregado que se considerou injustiçado e decidiu castigar a empresa, um garoto brincalhão que resolveu mexer com a vida dos outros só para tirar uma e se sentir o tal, um rival que precisa apaziguar a sua inveja indomável ou um ex-amor que se julgou traído e quis a todo custo se vingar. No caso da carioca S., de 18 anos, o autor se encaixa na última categoria. O namorado dela foi para o Canadá fazer um intercâmbio. Meses depois, S. resolveu surpreendê-lo: pediu a uma amiga que a fotografasse nua e mandou poses quentes para ele.

Três anos se passaram, a relação já tinha ido para o brejo e S. nem se lembrava mais das tais fotografias quando, de repente de surpresa! Vários de seus amigos começaram a receber imagens dela nua, enviadas por um e-mail anônimo, com o título “A nova piranha do Rio de Janeiro”. Pior: as poses foram visitadas por todo o colégio onde ela estuda, até pelos professores. Alguns insinuaram que só podia ser trama do ex-namorado. S. não quis acreditar e deixou barato. Mas se sente magoada e envergonhada. “Acho que a zona sul do Rio inteiro viu. Sem falar na minha família, que ficou chocada”.

TRANSA DA BARBIE: Os difamadores da rede não perdoam ninguém, atacam de anônimos a famosos. A cantora Ivete Sangalo, por exemplo, já teve a sua cota de gracinha tecnológica. Ela posou de biquíni para a revista Caras e, uma semana depois, topou com as mesmas fotografias num site... só que sem o biquíni. Até a Barbie entrou na dança. Já circulou em vários micros uma animação na qual a boneca aparece com o seu companheiro, Ken, numa entusiasmada sessão de sexo sadomasoquista – em suma, um filminho bastante impróprio para crianças, o público-alvo da Barbie.

O sexo é mesmo um dos pratos preferidos dos difamadores virtuais. Muita gente ainda se lembra da barulhenta história ocorrida no ano de 2002 em Ribeirão Preto, interior de São Paulo. A cidade passou meses saboreando o escândalo provocado por fotos pornográficas na rede que mostravam dois casais jovens, ricos, bonitos e conhecidos na região de felação, lesbianismo e em outras atitudes pra lá de vexatórias.

A “suruba dos ricos”, apelido que o caso ganhou, virou queixa na polícia e notícia na imprensa. O advogado das vítimas prometeu encontrar os culpados e provar que as fotografias eram montagens. Os casais juraram a mesmíssima coisa, enquanto o pai de um dos rapazes, o ex-deputado federal João Cunha, afirmou: “Foi chantagem”. Segundo contou, dias antes ele se negara a pagar os 500 mil dólares exigidos para que as cenas não fossem colocadas no ar.

Quando a vítima é uma empresa, os difamadores, em vez de cenas de sexo, criam boatos. A Ericsson precisou pagar anúncios nos jornais para desmentir a falsa notícia de que estava dando celulares de graça. A balela percorreu o país pelo correio eletrônico na forma de uma mensagem que garantia que, para ganhar um telefone, bastava remeter aquele e-mail para outra pessoa. A rede de fast food Habib’s, de São Paulo, levou meses para convencer a freguesia de que sua esfihas não eram feitas à base de baratas, como afirmava outra mensagem que circulou por milhares de computadores.

CRIME E CASTIGO: Pessoa física ou jurídica, quem se sentir atingindo por uma difamação virtual pode registrar queixa – ou num distrito policial comum ou num destinado a receber ocorrências da internet. De 1999 para cá, os abusos digitais cresceram tanto no Brasil que obrigaram a Polícia Civil a treinar seus homens e criar delegacias especializadas. Nelas, o que mais tem aparecido são queixas de difamação.

Na Delegacia Virtual do Rio de Janeiro, mais da metade das ocorrências em investigação é de crimes contra a honra, como são legalmente chamados atos como divulgar fotos ou inventar histórias que possam, de alguma forma, afetar a moral de outra pessoa e prejudicar sua imagem no trabalho, diante da família, dos amigos e da sociedade.

Na especializada de São Paulo, 70% de todas as queixas envolvendo a rede se enquadram nessa categoria. E o delegado Marcos Drucker Brandão, ex-coordenador de inteligência da Polícia Civil do Rio, acredita que devem existir muito mais difamadores por aí. “A maioria não procura a polícia”, acredita.

Se de um lado alguns ofendidos preferem não mexer uma palha, do outro os difamadores acreditam piamente que nunca serão descobertos. De fato, a rede dá ao usuário a sensação de impunidade e a falsa garantia de anonimato. Principalmente se ele montar páginas para serem exibidas em sites que não exigem dados do autor, como o Geocities, ou enviar mensagens de um e-mail gratuito de um e-mail gratuito, a exemplo dos oferecidos pelo Hotmail, avalia o psicólogo da PUC/SP e também analista de sistemas Erick Takura. Explica-se: os e-mails gratuitos costumam requerer basicamente o nome e o país de origem do usuário. Mesmo quando pedem mais dados, “não há meios de provar que as informações colocadas ali não são inventadas”, ressaltas o consultor e tecnologia da informação Aécio de Féo Flora Neto, de São Paulo.

Por essas e outras, a polícia encontra todo tipo de dificuldade nas investigações. Contudo, tem conseguido quase sempre localizar o computador de onde saiu a difamação e, muitas vezes, o autor. “Antes, a internet ficava fora do alcance da polícia. Hoje se obtém êxito na maioria das investigações”, assegura o delegado Drucker. O problema é punir o culpado depois.

Com exceção dos casos de pedofilia (que envolvem o uso de imagens de crianças para fins sexuais), ninguém até hoje foi preso no Brasil por calúnia eletrônica. No máximo, a polícia consegue tirar a página do ar, como aconteceu com a cantora Sandy. Muita gente pensou que ela tivesse posado nua. Só que as fotos publicadas em um site pernambucano, em maio de 2000, eram montagens. Encontrado, o autor da gracinha, um estudante de 23 anos, cumpriu a ordem de dar um sumiço na página. Ficou por isso mesmo.

Mas nem todo mundo sai impune. Em novembro de 2002, um jovem do Reino Unido foi condenado a cinco meses de prisão por publicar fotos de sua ex-namorada em um site na web. Por aqui uma legislação específica para a internet já está a caminho. “Mas não há nenhum projeto de lei sobre difamação”, informou o advogado especialista em direito de informática Itamar Arruda Junior. Então, o jeito é torcer para não ser a próxima a cair na rede.

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